segunda-feira, 24 de março de 2014

O padre das abelhas

Reconhecido no exterior, Jesus Moure contribuiu para a criação de instituições de pesquisa.


Padre Moure em 1948, Curitiba
Jesus de Santiago Moure era um padre do século XX, mas mais parecia um daqueles clérigos ilustrados dos séculos XVII ou XVIII, que aliavam a religião ao profundo interesse pela história natural. Ao morrer em consequência de falência múltipla de órgãos no dia 10 de julho, aos 97 anos, poucos sabiam qual era a ordem que seguia – a da Congregação dos Claretianos –, mas todos o reconheciam como um dos grandes sistematas de abelhas do planeta.
Filho de espanhóis, Moure nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A partir dos 12 anos frequentou seminários em Curitiba e Rio Claro. Teve toda a formação comum aos religiosos – com ênfase natural em filosofia e teologia – e aprendeu idiomas que seriam úteis na sua longa carreira científica, como latim, grego, hebraico, francês e espanhol. Em 1937, ao receber a ordenação em São Paulo, aproveitou o período na cidade para dar vazão a outra vocação, a zoologia. Fez contato com Frederico Lane, do Museu Paulista, e passou a colaborar com traduções do latim de textos entomológicos. Com Lane publicou seus primeiros trabalhos, entre 1938 e 1940, sobre curculionídeos, um tipo de besouro.
Começou a dar aulas de história natural no seminário de Curitiba, em 1938, e foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da cidade, depois integrada à Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em 1939 assumiu a Divisão de Zoologia do Museu Paranaense, do qual viria a ser diretor. “Como padre e professor do seminário e da faculdade tinha muitas obrigações durante o dia. Para continuar trabalhando e publicando simultaneamente, durante 20 anos dormi apenas três horas e meia por noite”, disse ele em depoimento para o livro Cientistas do Brasil (SBPC, 1998). O interesse por abelhas iniciou-se em 1940 com a publicação do artigo Apoidea Neotropica.
“Padre Moure foi autodidata em biologia”, assegura Paulo Nogueira-Neto, amigo de longa data, especialista em abelhas-sem-ferrão e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP). “Ele aprendeu estudando sozinho, interagindo com colegas cientistas e acabou professor titular de zoologia”, conta. “Nogueira-Neto, Moure e o geneticista Warwick Kerr são os principais nomes da pesquisa com abelhas no Brasil pelo pioneirismo do trabalho que começou ainda na primeira metade do século passado”, diz o entomólogo Gabriel Melo, do Departamento de Zoologia da UFPR, o mesmo onde o padre trabalhou.
Além de Nogueira-Neto e Kerr, Moure colaborou intensamente com João Camargo – grande taxonomista e desenhista de talento da USP de Ribeirão Preto, morto em 2009 – e com pesquisadores do exterior, como Charles Michener, da Universidade do Kansas, que passou um ano em Curitiba trabalhando com ele em 1956. Quando Michener voltou para os Estados Unidos foi a vez de o brasileiro acompanhá-lo e trabalhar em outro país. Lá viu nascer e trouxe para o Brasil a taxonomia numérica, uma metodologia usada hoje em ecologia, ao assistir conferências do estatístico Robert Sokal, nos anos 1960. Viajou pela Europa para estudar coleções de abelhas neotropicais com bolsa da National Science Foundation e obteve auxílios da Fundação Rockefeller para equipar laboratórios no Brasil. No total, o religioso escreveu 220 artigos em revistas nacionais e estrangeiras e dois livros, além de ter descrito 432 espécies e 33 subespécies de abelhas entre 1940 e 2002. Nos últimos anos, debilitado, recolheu-se no convento dos claretianos de Batatais (SP).
Na parte institucional participou de iniciativas em prol da pesquisa, como a criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Coor­denação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), além de várias organizações científicas. “No Paraná, ele foi especialmente importante para desenvolver a pós-graduação”, conta Danúncia Urban, colaboradora antiga do “padre das abelhas”, como ficou conhecido em Curitiba. As atividades científicas nunca o fizeram abandonar as obrigações sacerdotais. Segundo Danúncia, os professores amigos celebravam seus casamentos e batizavam filhos e netos com ele. O pesquisador também não via nenhum conflito entre religião e ciência. Moure resolveu o problema de modo prático desde o princípio da carreira, segundo entrevista para Cientistas do Brasil: “Deus fez o mundo pela evolução. E a lei de Deus é a lei da evolução correndo no tempo”.
 Clic : Consulte o catálogo de abelhas do padre Moure
Reportagem : NELDSON MARCOLIN | Edição 174 - Agosto de 2010 - Pesquisa Fapesp

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